Editora Mensagem - Luanda

Não existe em lado nenhum do Mundo - Futuro... sem Educação!

O desumano transporte de escravos nos navios negreiros

Navios negreiros

Fluxo de escravos entre 1800 e 1866

A carga humana num navio negreiro - 20 a 25% eram lançados ao mar... morriam por não resistirem ao sofrimento da distância da viagem.

Para a compreensão da escravatura em Angola - Documentos

Contributo documental importante para a compreensão da história da escravatura em Angola... e da realidade colonial portuguesa, antes da Conferência de Berlim - 1884-85, que dividiu povos e nações e retalhou o Mapa da África.

A Carta da Dona Ana Joaquina ao Muatiânvua Noéji, senhor de todas as Lundas, datada de 25 de novembro de 1845. Ana Joaquina, a mestiça que foi a maior escravocrata de Angola e detentora da maior frota de navios negreiros, de escravos, terras e gado, numa grande parte de Angola e a proprietária por herança, do maior Solar de Angola - Situado no Bungo que fica muito próximo da Baía de Luanda.

- "Senhor, com a última caravana chegam notícias do seu Estado, de sua saúde e da forma como ainda cumpre a vida entre os conselhos dos mais velhos e o exercício da sabedoria própria dos descendentes directos de Yala Muaku, da linha de Luéji, a fundadora. Os meus respeitos. Alegra-me saber que os meus pombeiros e libertos percorreram, desta vez, os caminhos pequenos cumprindo os preceitos dos vossos subordinados.

Fiquei ciente, pela vossa estimada carta, de que as portas de todas as fronteiras foram abertas com presentes, que os acampamentos se fizeram nos locais indicados e que todas as pontes foram bebidas com o vinho certo na hora prevista. Também fiquei sabendo que os negócios maiores, por indicação de vossos embaixadores, só tiveram lugar no mercado grande de vossa Mussumba. Que se cumpram os preceitos para contentamento de todos é o meu desejo e penso ser também o vosso. Apreciei e muitos vos agradeço os presentes que me haveis enviado, sobretudo a caraça de madeira e resina, vosso troféu de guerra de um tempo mais antigo, cuja linguagem da floresta e sorriso estranho me perturbam um pouco. Arranjei para ela um lugar especial no meu palácio, pois me parece que ma haveis mandado não só como presente mas como sinal de vossa estima particular e início de uma longa conversa de que as cartas como esta darão conta. Aguardo. Vossos parentes pelo lado do cesto, assim se apresentaram, foram, a seu pedido, alojados nos quartos da ala leste do palácio. Evitam o barulho do mar, que, segundo me disseram, lhes perturba a orientação e as referências.

O mais velho, Na Palavra, vosso irmão de criação e muito dedicado, ajuda-me a passar as noites e os dias em que, no intervalo dos negócios, desce sobre mim a impossibilidade do sono, aumentada pelos sons incompreensíveis dos milhares de escravos que se agitam nos meus pátios. Na Palavra dedilha as oito línguas de metal do seu quissanje, passa-me o seu cachimbo de água e ajuda-me a ver através do nevoeiro que se adensa sobre a minha casa e me divide o espírito. Foi ele que me contou de Kabebe a nova Mussumba que haveis feito construir em solo regado com o sangue de uma caçada que vos foi particularmente propícia.

Fala de uma cidade virada a leste, segundo os princípios dos cursos de água que a percorrem e foram respeitados. Compara as ruas direitas e limpas, diz que é mister e ponto de honra dos que podem habitar Kabebe varrer as ruas, aquietar a sopro todas as poeiras e espalhar perfume todas as manhãs, com as tortuosas e muito sujas ruas de Loanda, a cidade branca deitada sobre a baía, construída longe das fontes. Diz, Na Palavra, enquanto faz soar o seu quissanje a oito vozes, que ao contrário de Loanda Kabebe é uma cidade feita para os homens, um espaço para a vida, limpo, justo e partilhado. Diz, ainda, Na Palavra, e isto, confesso, senhor, que me custa a crer, que tal como os falsos telhados que se constroem para dar a aparência de casas maiores, o que afasta os inimigos e protege do sol inclemente da chana, tudo em Kabebe pode ser e não ser ao mesmo tempo: é uma cidade para servir os homens.

Chegou a confessar-me, no dia em que depois de ter longamente fumado a sua mutopa os gestos se tornaram mais lentos, que quando vos deslocais na qualidade de imperador e pai de todos os lunda, a cidade se move também, pois vosso poder existe no espaço que o conforma. Foi nesse dia que me disse que, mais do que uma cidade, Kabebe é uma ideia, a ideia de harmonia entre os homens, o fogo e o lugar.

Por tudo isto, senhor, perdoai-me a urgência desta carta, que por vezes falha o protocolo, mas que será selada com o meu carimbo especial e vos será entregue pelo meu liberto favorito, em quem confio mais do que nos embaixadores que percorrem o sertão ao meu serviço, mas e usando o meu nome, servindo as causas de seus próprios interesses, prejudicando assim nossas vontades.

Senhor, preciso de vosso tahi, o adivinho, e dos serviços de vosso arquitecto. Meu pai e senhor, eu não habito Kabebe e meu palácio, construído de pedras do Brasil, feito para me sobreviver, parece agora frágil, quando escuto Na Palavra ou quando me entrego ao descanso.

Os meus sonhos vêm antes mesmo do sono, para deitar redes em rios que só são margens, que não domino, nem com todo o meu dinheiro, meus barcos e meus escravos. No meu sonho mora agora uma cidade povoada de lagos tristes e estéreis como charcos onde lentos kifumes desfiam memórias.

Senhor, mandai-me, com urgência, o vosso tahi, e os vossos remédios, para me curar desta doença que me avisa de um futuro que não devia saber, onde o céu se abre e anjos quase meninos estendem sobre a terra esteiras de estrelas enlouquecidas. Senhor, apiedai-vos de quem se sente mal por adivinhar um chão que treme e um palácio que já não existe. Em vossa sabedoria, e em vossos remédios deponho humildemente a minha esperança. Sabei que vosso tahi será tratado com as honras de grande chefe e sábio e os seus desejos, sobretudo aqueles que forem expostos em vosso nome serão ordens.

Para vossa informação vos digo que consultei o médico do representante de Muene Puto em Luanda, a quem ofereci presentes. O médico levou-me o tempo e a escrava mais bonita do quintal e não me deu descanso, nem alívio, nem sequer o conforto da palavra.

Com a minha carta vos mando um manto bordado, uma espingarda alemã e alguma aguardente.

Sei que nada pode pagar a dívida que desde já anuncio contraída, para sempre, com a vossa pessoa.

Aceitai-os como lembranças desta vossa serva aflita.

Saudações respeitosas e humildes de quem já não é mais do que a sua própria sombra.

Loanda, 25 de Novembro de 1845 - Ana Joaquina Santos Silva Ndembo ya Lala* escritora angolana".